segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Para Bruno

Tenho saudades de um tempo em que não precisava falar para fazer as coisas existirem. Em que elas simplesmente aconteciam, iam e vinham e a gente não precisava pensar nelas. Esse não é o discurso de um velho. Sem saudosismo, por favor. É mais o gemido resignado de uma lembrança que não se queria assim, lembrança, mas que acabou desistindo. O passado não é o que passou mas o que se passa. As palavras então não eram necessárias por que apenas serviriam para duplicar, muito timidamente, o que acontecia. Falar seria só como um espelho embaçado que reflete a coisa mais linda do mundo. Ninguém se dava o trabalho de prestar muita atenção nele. Viver era melhor. Agora não encontro saída a não ser buscar esse reflexo, essa memória que antes não precisávamos ter. Quando como o Leozinho entrava pelo portão com os braços abertos, esperando, e ao mesmo tempo produzindo, meu abraço mais apertado e delicado. Naquela hora não havia o que pensar. Hoje não consigo parar de pensar naquilo. A felicidade é sempre, essa sim, alguma coisa que passou. Foi num desses dias que tudo aconteceu. Eu estava no banheiro, imagina só, mijando uma porção de coca cola misturada com guaraná, quando ouvi meu nome sendo gritado. Logo nessa hora. Mijar é o tipo de coisa que, uma vez que se tenha começado, tem que ir até o final. Não da pra parar no meio. E eu fui até o final, ouvindo os gritos ansiosos vindos lá de baixo. Desci correndo. O que houve? Eu não tinha mais que 13 ou 14 anos e sabia que não tinha feito nenhuma bobagem. Por que me chamavam? Desci. E estavam todos juntos, aglomerados em volta da mesa com o bolo e com você, atrás dela, com o olhar atento a cada um, esperando, procurando...
Por mim. Você não deixou que seu parabéns fosse cantado sem mim. Era uma criança, tão criança que de lembrar me embola na garganta. Ali eu estava e sorrimos e cantamos seus parabéns. Depois daquilo nunca mais consegui cantar um parabéns baixinho ou com pressa. Sempre bati palmas e gritei, e grito até hoje. E essa é a história desse grito. Não sei o que houve para que você me esperasse. Não quero saber, não preciso. Naquela época nada dizíamos, só vivíamos. Não havia memória. E hoje só há memória. E dúvida. Mas não sem resistência. De fora de toda palavra, ao largo de toda linguagem, não quero saber o porquê. Mas o sinto. E como sinto e como quero sentir! Não consigo parar de pensar, mas é uma pensamento de fogo que vem do peito, sobe pela garganta e chega nos olhos e na boca. E fica, teimoso, queimando ali. Não quero falar muito, só isso aqui, o mínimo pra te lembrar que não esqueci. Nem pretendo.

domingo, 8 de abril de 2012

Não obstante a seca que causou
os desertos que formou
o Sol se apresenta
imponente
sobre
nós.

Indiferente aos sonhos mesquinhos
do homem
o Deus Sol se faz ver
brilhante, sobre, distante
tão perto
de cada um de nós.

domingo, 24 de abril de 2011

conversa no facebook

hj eu pensei numa coisa, aliás, me ocorreu um pensamento
algo que já havia começado em outro momento
enfim
"viver é como descobrir-se no ônibus errado"
de repente vc não sabe pra onde vc está indo
percebe que não está onde imaginava
e se vê meio perdido, meio encontrado
pq o primeiro passo pra se encontrar é saber-se perdido, né?
o maior perdido é aquele que não sabe q está perdido
que começa com o nascimento e termina com a morte
é, na verdade, a emergência de uma consciência
que vem e vai
de repente a gente se esquece
e é como se não estivéssemos vivos
vamos carregados por qualquer onda
pelo vento
não há nada de nosso nas nossas ações
e aí vem um tropeço
e a gente toma consciência
e se pergunta, "o que que eu to fazendo aqui?"
"pra onde eu to indo?"
"pra onde eu quero ir"
?
é como descobrir-se no ônibus errado mesmo
de repente vc respira e pensa, com todas as forças, num movimento meio involuntário
"o que eu faço agora?"
desço?, espero chegar até o ponto final?, peço ajuda?
me exponho ao ridículo de parecer uma criança desorientada?
todos no ônibus parecem saber para onde vão
de repente vc se vê sozinho
puxa o sinal, elegantemente, para que ninguem perceba que vc se perdeu?
na verdade vc acaba agindo
e isso que vc faz, como vc faz, é o que te define
sua verdade aparece melhor do que nunca nesse momento
qdo vc está perdido, não tem tempo pra pensar
aih que vc aparece, como consciência e vida

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Depois de muito tempo

empacotei meus pertences, despedi de tudo, ao lado do caminhão de mudança, entrei no carro e parti. a viagem foi tão longa que me perdi. até enfim encontrar a esquina correta, a rua correta, a nova casa. desempacotei, recebi as boas vindas, cheguei. depois de caprichar na arrumação da nova casa, a vista da janela me derrubou para trás. com assombro percebi os mesmos vizinhos, o mesmo endereço, as mesmas paredes. mesmo lugar. abro a lista telefônica. empresa de demolição. não. talvez seja melhor uma empresa de eutanásia.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Acontecimento da Eleição

O maior acontecimento das eleições 2010 é a campanha eleitoral do Tiririca. Em seu programa de televisão, o candidato se apresenta aos eleitores dançando e fazendo piadas como: "o que faz um deputado federal? Na realidade eu não sei, mas vote em mim que depois eu te conto." O conjunto da obra é simplesmente hilário.

O que faz disso o acontecimento das eleições não é, entretanto, toda essa comédia. Quem lembra do Enéas ou das tiradas geniais do Brizola sabe que é possível fazer humorismo de alto nível no horário político eleitoral.

O mais interessante é a reação que a campanha do Tiririca causou em muitas pessoas: um misto de indignação com incredulidade. - Que absurdo! - dizem com as caras emburradas, ou - Isso é um desrespeito! - dizem ainda com mau humor. Outros limitam-se a perguntar - Isso pode?

Tiririca coloca uma fantasia ridícula, que estamos acostumados a acompanhar nos piores programas de televisão da nossa péssima tv aberta, e pede seu voto com um sorriso na cara enquanto mexe as mãos numa dancinha bizarra. Ele chega a dizer: "- Vote no abestado!"

Vote no abestado? Isso, sem dúvida alguma, é uma grande novidade. Ouvimos o tempo todo "Vote no melhor candidato!" ou então "Vote em quem trabalha!", "Vote no candidato do povo!"... Muitos são os slogans e os jingles já surrados pela sucessão de campanhas sempre iguais.

Vimos inúmeras vezes os mesmos candidatos prometerem as mesmas coisas, eleição após eleição. Vemos filhos e netos de candidatos que governam o país há 30 anos falarem em renovação. Vemos com horror a quantidade de Botox na cara da futura presidente da república. Efeitos cinematográficos hollywoodianos nos programas eleitorais do candidato da "oposição" que só pra ficar em pé precisa tomar mais de 5 remédios (não genéricos). Vemos o futuro-mesmo governador do rio de janeiro chorar, fanfarrão, na televisão dizendo o quanto ama a vida pública. E quem não amaria essa mamata? E quem não choraria por ela? Até a tartaruga touché...

Vemos agora candidatos que renunciaram a seus mandatos anteriores para evitar cassação e perda de direitos políticos. Vemos homens e mulheres comprometidos com máfias e com a justiça e ainda assim concorrerem a cargos eletivos com a maior cara de pau do mundo. Temos inclusive - maior dos jogos de cena - um presidente que confessa fazer caixa 2 em suas campanhas e alega que "isso todo mundo faz". A "oposição" se cala. E continua calada. Adivinha de onde vem a grana para a campanha dos candidatos da situação e da "oposição"?

E todos, sem exceção, em tempos de eleição vestem a máscara da honra, o véu da seriedade, a capa da dignidade... As pessoas indignam-se; não acreditam, não conseguem aceitar... o Tiririca. Suprema ironia: candidatos que parecem sérios passam desapercebidos (e se elegem, muitas vezes com o voto dos outros). Candidatos comediantes causam indignação. Quer dizer que não é preciso ser sério, basta parecer sério na televisão...

Imagino Tiririca dizendo: - "Mas o que tem a ver a minha campanha com o meu mandato?" Mais uma verdade: Em tempos de campanha vale tudo: plástica, efeitos especiais, compra de votos, caixa 2, etc. Campanha política não tem nada a ver com o que será o mandato. Quantas eleições e mandatos são necessários para aprenderem isso?

Campanha é show, é marketing, é pirotecnia. Quem é mais rico vence. Eike Batista contribuiu com 1 milhão de reais para a campanha da Dilma. E contribuiu com outro milhão para a campanha do Serra. Seja como for, ele vencerá. O mais rico sempre vence. Aprendam. O PT já aprendeu, agora será difícil tirá-lo do governo.

Eleição é uma piada. Aprendi isso há muitos anos, apesar de não ser tão velho assim. Não que eu entendesse bem do jogo político quando tinha 10 anos: é que no fundo dos olhos daqueles candidatos que eu assistia, atento e risonho, no horário político, sempre havia um sorriso. Um sorriso guardado para o final, o melhor sorriso, o sorriso dos vencedores. Acontecesse o que acontecesse, no final dava sempre na mesma. Essa a maior das piadas. E eu ria, ria... Ria.

A justiça eleitoral proibiu sátiras e piadas com políticos em programas humorísticos em tempo de eleição. Não faz mal, ninguém rirá menos: nossos melhores comediantes estão no horário eleitoral. Alguns deles vestem o nariz de palhaço, como o Tiririca. Outros colocam o nariz de palhaço no eleitor. Qual piada é mais engraçada? Qual é inaceitável?

Piada de português: Por que o português gosta de eleição? Porque é o coração da Democracia.

Acabo de inventar essa piada. Pelo visto não sirvo pra candidato.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Bolt

There's no speed
in those who run from something

There's no speed
in those who run in fear

There's no speed
in those who run for nothing

The true speed
lies in joyful running children

The true speed
comes with a smile

The true speed
lies in you, Usain
cause you run like kids on vacation

quinta-feira, 15 de julho de 2010

extemporânea

de tudo,
o que mais faz duvidar da realidade
e pensar que nada passa de ilusão,
de tudo, é o tempo
quando parece que não passa.
Eu passei, outros passaram,
mas o tempo não.
é como se a história
não passasse de repetição.
as cicatrizes desmentem
os calendários desmentem
as memórias desmentem
mas o coração insiste:
nada mudou.
como no primeiro dia
ainda é tempo de viver.