Aproxima-se o inverno.
Ora joana, ora josé:
"santa maria mãe de deus...
pai nosso que está no céu...
Ajuda aqui senhor,
por todos os santos..."
Poesia é beleza que se tira
do frio, da fome, da solidão.
Não, a poesia não é mentira
é a teimosia da vida em ação.
Não, a poesia não é verdade
é que a mocidade, que já vem tarde,
não sabe mais a letra da oração.
domingo, 4 de outubro de 2009
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Mero
Tantas e tantas vezes repetiu-se a cena mas evitar não se podia. Repete-se, repete-se, repete-se. Pete-se. Repete-se. Sugismundo ia indo, sem saber muito bem, devagar e nunca. Seguia e sorria pra vida, mas não tinha muitos dentes, o que fazia com que a vida aborrecida achasse aquilo mais uma careta mesmo. E aí revidava.
Devagarinho sem saber ia indo, Sugismundo, nunca muito bem. Feio que doía, esguio, vi um dia sendo movido pela ventania, mas ia sempre no mesmo sentido. Divino, parecia piriquito avoado, só que depenado, tadinho.
Sugismundo ia indo, sem saber muito bem, devagar e nunca. Tropeçava e caía, mas ninguém ria, ninguém sabia quem era aquele homi. Quem seria? Seria homi? Sugismundo até tinha um jeitinho meio não sei não...
Devagar e nunca, sem saber muito bem, lá ia indo o homi(?). Pra onde? Fazia a mesma rotina todo dia, mas ia tão distante que não se sabia onde é que queria ir. Ele ia indo e era o tempo todo uma ida.
Sem saber muito bem Sugismundo ia indo, devagar e nunca. Nunca ninguém jamais pegou o homi(!) regredindo. Era cedinho que saía e devia era ser noite ou matina quando volvia. Eta destino longe. Pra lá de... sei lá. De Piauí.
Devagar ia indo Sugismundo sem saber, nunca, muito bem. Era nome ou apelido? Ninguém sabia também.
Ia indo Sugismundo, ia indo, ia indo e um dia iu.
Repetia, repetia, repetia. Petia. Repetia. Sugismundo parecia dar volta ao mundo! Todo dia!
Devagarinho sem saber ia indo, Sugismundo, nunca muito bem. Feio que doía, esguio, vi um dia sendo movido pela ventania, mas ia sempre no mesmo sentido. Divino, parecia piriquito avoado, só que depenado, tadinho.
Sugismundo ia indo, sem saber muito bem, devagar e nunca. Tropeçava e caía, mas ninguém ria, ninguém sabia quem era aquele homi. Quem seria? Seria homi? Sugismundo até tinha um jeitinho meio não sei não...
Devagar e nunca, sem saber muito bem, lá ia indo o homi(?). Pra onde? Fazia a mesma rotina todo dia, mas ia tão distante que não se sabia onde é que queria ir. Ele ia indo e era o tempo todo uma ida.
Sem saber muito bem Sugismundo ia indo, devagar e nunca. Nunca ninguém jamais pegou o homi(!) regredindo. Era cedinho que saía e devia era ser noite ou matina quando volvia. Eta destino longe. Pra lá de... sei lá. De Piauí.
Devagar ia indo Sugismundo sem saber, nunca, muito bem. Era nome ou apelido? Ninguém sabia também.
Ia indo Sugismundo, ia indo, ia indo e um dia iu.
Repetia, repetia, repetia. Petia. Repetia. Sugismundo parecia dar volta ao mundo! Todo dia!
domingo, 16 de agosto de 2009
Lenda
Todos os dias aquele menino ia andando, como quem é menino de rua, sujo e mal vestido pela Santa Luzia a olhar os prédios e cantar. Cantar qualquer coisa, o que viesse na cabeça, o que a onda trouxesse, com um pouco de tiner numa garrafa e os olhos avermelhados. Lá ia ele puxando aquele negócio e cantando, olhando pra cima e sorrindo, meio lesado.
Ficava doidão e ia parar ali. Não era um bom lugar pra pedir e nem pra dormir, pouca gente, muito escondido. Tinha uma Igreja, de vez em quando umas tias distribuíam sopa por ali, mas ele não gostava de sopa e nem desses padres, tinha medo deles. Não gostava de preto. Mas mesmo assim voltava e revoltava, cantando e cheirando o tiner.
Não devia ter muito mais que dez anos, era bem pequeno, menor que eu. Contava que nunca mais voltaria na Lapa, pois jogou uma pedra num guarda. Ia apanhar com certeza se voltasse, não, era melhor ficar longe. Mas o mais longe que ele ia era a Central, voltar pra casa nunca mais. Da última vez havia apanhado tanto que jurou nunca mais voltar, chorou muito,chorava muito, por isso todos o chamavam de chorão. Uma vez disse que não tinha nada a perder, que a vida já tinha acabado, mas isso era papo, detestava perder até par ou ímpar. Não queria chorar de novo.
Todos os dias ele ia andando pela Santa Luzia, os olhos dos patrões de terno e gravata, medrosos, se voltavam pra ele, que, abobalhado, só ria... Engraçado aquele garoto. Os outros só viviam juntos, e ele não, de vez em quando sumia sozinho, geralmente quando estava doido. Muleque maluco, um dia ia acabar sendo pego mesmo. Acabou indo tirar férias da rua num desses presídios-de-criança, ou unidades-de-cumprimento-de-medida-sócio-educativa, como uma vez ouvi chamarem. Um colega que esteve lá com ele disse que ele não ia ficar muito . Tá muito triste, coitado, quer voltar logo. Mandou avisar que encontrava com geral ali perto do MAM em uma semana, depois de conversar com um tio lá dentro. Não tinham como prender ele muito tempo, não tinha feito nada demais, só tirado um celular de alguém.
Acontece que uma semana já passou há muito tempo e os meninos cansaram de esperar. Se mudaram pra longe, São Cristóvão, pelo que eu soube. Um deles encontrou um guarda na Rio Branco. Ele não falou nada, só riu. Riu feio, cheio de dentes... Eles decidiram não ficar mais por ali. Não deram adeus nem nada, só sumiram.
Escrevo só pra não esquecer mesmo. Ninguém mais se lembra deles agora e só eles lembravam do menino. Só pra não ficar como se não tivesse existido, escrevi alguma coisa. É que sempre que passo na Santa Luzia lembro dele. Mas não devo passar por ali tão cedo, to me mudando, de saco cheio de sopa e tiner.
Ficava doidão e ia parar ali. Não era um bom lugar pra pedir e nem pra dormir, pouca gente, muito escondido. Tinha uma Igreja, de vez em quando umas tias distribuíam sopa por ali, mas ele não gostava de sopa e nem desses padres, tinha medo deles. Não gostava de preto. Mas mesmo assim voltava e revoltava, cantando e cheirando o tiner.
Não devia ter muito mais que dez anos, era bem pequeno, menor que eu. Contava que nunca mais voltaria na Lapa, pois jogou uma pedra num guarda. Ia apanhar com certeza se voltasse, não, era melhor ficar longe. Mas o mais longe que ele ia era a Central, voltar pra casa nunca mais. Da última vez havia apanhado tanto que jurou nunca mais voltar, chorou muito,chorava muito, por isso todos o chamavam de chorão. Uma vez disse que não tinha nada a perder, que a vida já tinha acabado, mas isso era papo, detestava perder até par ou ímpar. Não queria chorar de novo.
Todos os dias ele ia andando pela Santa Luzia, os olhos dos patrões de terno e gravata, medrosos, se voltavam pra ele, que, abobalhado, só ria... Engraçado aquele garoto. Os outros só viviam juntos, e ele não, de vez em quando sumia sozinho, geralmente quando estava doido. Muleque maluco, um dia ia acabar sendo pego mesmo. Acabou indo tirar férias da rua num desses presídios-de-criança, ou unidades-de-cumprimento-de-medida-sócio-educativa, como uma vez ouvi chamarem. Um colega que esteve lá com ele disse que ele não ia ficar muito . Tá muito triste, coitado, quer voltar logo. Mandou avisar que encontrava com geral ali perto do MAM em uma semana, depois de conversar com um tio lá dentro. Não tinham como prender ele muito tempo, não tinha feito nada demais, só tirado um celular de alguém.
Acontece que uma semana já passou há muito tempo e os meninos cansaram de esperar. Se mudaram pra longe, São Cristóvão, pelo que eu soube. Um deles encontrou um guarda na Rio Branco. Ele não falou nada, só riu. Riu feio, cheio de dentes... Eles decidiram não ficar mais por ali. Não deram adeus nem nada, só sumiram.
Escrevo só pra não esquecer mesmo. Ninguém mais se lembra deles agora e só eles lembravam do menino. Só pra não ficar como se não tivesse existido, escrevi alguma coisa. É que sempre que passo na Santa Luzia lembro dele. Mas não devo passar por ali tão cedo, to me mudando, de saco cheio de sopa e tiner.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Artista de Rua
Às seis e pouca da noite, um artista de rua, meio desengonçado, diz: "Boa noche!". Seu sotaque e seu jeito desajeitados param ali, embaixo do último sinal da Rio Branco, perto daquele chafariz. Tira sua jaqueta e amarra na cintura, enquanto um par de asas brancas enormes surge em suas costas, asas de condor. Bate-as e voa, alto, muito alto, a se perder de vista.
A noite era fria e as nuvens poucas no céu. Logo pôde se ver algo voltando, uma flecha, muito rápido, vindo na direção do sinal. Faltando poucos metros as asas se abrem e - puf - aterrisa ali, na mesma faixa de pedestres. Asas dobradas, curva-se em sinal de agradecimento e depois recoloca a jaqueta. Respira fundo e velozmente a retira, abrindo os braços enquanto outras asas, dessa vez menores, lhe aparecem nas costas, rapidíssimas, esverdeadas, asas de beija-flor. E ele voa, parado no ar, à um metro do chão. E então sorri, seus olhos brilham, forte, e abre a boca que parece uma lanterna, tanta luz que sai de dentro. E a luz fica intensa e vira fogo e ele assopra uma rajada de fogo no ar, ofuscada pelo farol dos carros, mas ainda resplandecente. Então - quando? - suas asas não era mais singelas, mas robustas e escamadas e ele tinha um rabo e pequenos chifres na testa... Era um dragão, pousando no chão, de asas abertas a reluzir com as luzes do farol. E um homenzinho vermelho piscava no sinal de pedestre quando o sinal se abriu e os carros passaram com seus vidros escuros.
Pai, você viu aquilo? - disse o garoto no banco de trás - O que filho? - disse o homem, olhando pelo retrovisor - O homem, pai!, Voando! - Hãn? Onde filho? - Ali, pai, no sinal. - Você ta vendo muito desenho, João... - no colo de Joãozinho, uma prancheta e um rabisco, vermelho. Parecia uma bola de fogo.
Joãozinho podia estar vendo muito desenho. Neles os homens transformam-se em animais, às vezes animais fantásticos, voam e lançam fogo. O que ele nunca havia visto, porém, era homem nenhum fazer tanta coisa incrível embaixo de um sinal. Por que ele fazia aquilo? Por que ninguém via? Chegando em casa, depois, Joãozinho pensa, sozinho: não vou parar de ver desenho nunca...
sábado, 20 de junho de 2009
o gosto da água pura
Consumo. Um homem ganha e gasta seu dinheiro. Roupas, livros, filhos, causas nobres. Quanto mais ganha, mais gasta. Ganhou um aumento em seu salário, revertido em aumento em seu consumo. Os antigos objetos de desejo já não servem mais. A mulher está gorda. Os filhos pedem demais, bebem demais, quando foi que eles aprenderam isso? A mulher precisa de uma lipo, os filhos de psicólogos e clínicas de reabilitação. O homem precisa ocupar a mente, tem pensado demais. Crise de meia-idade... Há um livro excelente daquele executivo. Há boas peças de teatro e uma grande aventura nas montanhas andinas. Os pensamentos vão e vêm, o que fazer com eles? Estresse, impotência, viagra, implante capilar. Seus pais morreram... o enterro faz tanto tempo. Como era o rosto de sua mãe? O homem morreu. Seu celular ainda brilha, mas não toca mais. Eles só duram seis meses agora. Seus filhos se perguntam o que farão. Dizem que há um bom livro daquele guru indiano... O sol continuará nascendo, dizem. Mas por que tão cedo... Hoje não se morre com menos de cem anos. Consumo. Ninguém se casa mais. Todos são divorciados. A religião acabou, o comunismo acabou. Para onde foram as crianças? Onde as pipas? Onde escondem-se os velhos? A mulher morreu. Os filhos estão no orfanato, ainda têm 30 e poucos. Qual será o gosto da água pura?
segunda-feira, 25 de maio de 2009
Anjo Negro da Bahia
Levanta a mão pro céu
Pedindo jogo
Mata a bola no peito
E chuta em gol
Óbina
É rei!
Espera calmamente
Lateral cruzou
Voou graciosamente
E voleou
Óbina
É rei!
A massa grita
A massa ri
A massa chora
Por amor pra sempre Óbina
Anjo negro Salvador
Pedindo jogo
Mata a bola no peito
E chuta em gol
Óbina
É rei!
Espera calmamente
Lateral cruzou
Voou graciosamente
E voleou
Óbina
É rei!
A massa grita
A massa ri
A massa chora
Por amor pra sempre Óbina
Anjo negro Salvador
domingo, 10 de maio de 2009
Batismo
O menino saiu para jogar
A menina brinca, sonhadora
A mãe chora.
O pai carrega a cruz
A família separada nada vê
A mãe chora.
A mãe chora
tudo o mais silencia
ouvindo seu choro
o menino volta
a menina cresce
o pai abaixa a cabeça
a família se abraça
renova-se o fruto de seu ventre
com suas lágrimas de batismo
Mulher
A menina brinca, sonhadora
A mãe chora.
O pai carrega a cruz
A família separada nada vê
A mãe chora.
A mãe chora
tudo o mais silencia
ouvindo seu choro
o menino volta
a menina cresce
o pai abaixa a cabeça
a família se abraça
renova-se o fruto de seu ventre
com suas lágrimas de batismo
Mulher
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